segunda-feira, 27 de abril de 2020

Orcs de internet



Os trolls1 de internet já são criaturas conhecidas e bem catalogadas no inventário cultural da web. Basicamente, são pessoas perniciosas que transitam pelas redes sociais atazanando os usuários incautos que caem em seus ardis.

Buscam desarmonizar debates potencialmente sadios com argumentações torpes, polêmicas, agressivas ou simplesmente ridículas, cujo único objetivo é o de desestabilizar emocionalmente o interlocutor e levá-lo a perder a razão. Tudo para a satisfação egoísta do troll, em seu desejo prepotente de autoafirmação. 

Existem variados tipos de trolls e diferentes táticas usadas por eles para enredar e azucrinar suas presas, porém, os propósitos são essencialmente os mesmos, exaurir a racionalidade proveitosa nas discussões em que eles se manifestam.

Em geral, não defendem a uma causa ou a uma bandeira em específico, e agem mais pela geração de caos pelo caos. Muitos, apenas por estarem entediados ou frustrados com suas vidas, além de também apresentarem falhas graves no filtro moral que gera empatia pelos outros. No fundo, são uns ególatras aborrecidos com traços de sadismo e psicopatia.

Outra criatura, no entanto, parece ser menos reconhecida no tratamento das comunicações internéticas: o orc2 de internet. Primos dos trolls, parecidos em muitos aspectos, a ponto de serem confundidos. Diferencem-se, porém, por suas motivações.

Enquanto os trolls parecem agir mais livremente, desatado de causas ou ideologias, os orcs de internet, por outro lado, não. Estão arraigados a crenças pessoais e levam suas ideias a sério. Ostentam estandartes e buscam impor suas verdades aos outros. Podendo essas verdades ser de origem religiosa, cultural, ideológica, política, ou, até mesmo, meras expressões da vaidade pessoal da criatura, visto que tendem a ser narcisistas e pernósticos por natureza.

São menos inteligentes do que os trolls, porém, sabem se organizar melhor em bando, o que os tornam muito perigosos para a harmonia social da vida em comunidade, visto que suas esferas de atuação conseguem ultrapassar os meios digitais de comunicação e também se expressar no espaço público do mundo real, através de manifestações sociais com viés de intransigência, o que vem a por em xeque certos valores da ordem democrática.

Os orcs de internet são cidadãos com pensamentos enviesados e egos inflamados, avessos a autocríticas, e que se portam como virtuoses tacanhos de sua moralidade. Combativos, estão sempre em constante vigília contra os aborrecimentos acometidos.


Não buscam debater com o contraditório, buscam abatê-lo. Não querem conviver entre os culturalmente divergentes, querem se sobrepor a eles. São egomaníacos e intransigentes, que se unem em bando apenas para poderem se sentir reforçados na reafirmação coletiva do grupo, em ataques sujos e detrações a seus opositores.

Seres dantescos, cuja única proposição consiste na negação do divergente. São danosos para o progresso e bem-estar da sociedade, proliferando como nunca pelas redes sociais, como hordas selvagens investindo contra a civilização. Estão por todos os lugares e podem vir a ser qualquer um, hoje em dia, inclusive, um membro querido da família.


1. Considero interessante que o termo venha da expressão em língua inglesa, “trolling for suckers”, que poderia ser traduzida como algo do tipo: “lançando isca para trouxas”, pois descreve bem a essência da tática de “caça” dessas criaturas, cujo nome também remete aos monstros do folclore nórdico, muito apropriadamente.

2. Referência, espero que óbvia, às criaturas da obra de J. R. R. Tolkien.

A volta dos corcundas



Durante o período em que se desenrolou a movimentação político-social que culminou no processo de independência do Brasil, os partidários da ideia de que o então reino autônomo do Brasil deveria retornar ao seu antigo estatuto colonial, subserviente a Portugal, foram pejorativamente alcunhados por seus adversários políticos de corcundas. Crítica pela postura submissa deles diante a corte de Lisboa, para a qual, segundo seus opositores, estariam se curvando servilmente em sinal de prostração.

Quase duzentos anos depois, os corcundas parecem ter retornado com tudo ao cenário político brasileiro! Desta vez, pregando e defendendo despudoradamente a submissão do Brasil perante os anseios políticos dos Estados Unidos.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vende-se alma seminova



Tanta gente vendendo a alma apenas por um emprego... e tantas mais querendo vender sem conseguir...

Montanhas de rejeitos, fissurados e desgastados; detritos sem valor, olhando para o céu, rogando para serem reaproveitados.

domingo, 12 de novembro de 2017

O tiraninho do bem


Charlezinho não era uma má pessoa. Era um bom menino, um tanto mimado, embora nada além do que era natural em seu meio social, de classe média alta. Estudou em boas escolas particulares, sempre tratou bem os empregados da família, nunca ligou muito para questões de política. Como a maioria dos jovens de sua idade, estava mais preocupado com suas pontuações nos jogos onlines e em ser notado pelos seus pares, em especial, pelas garotas de sua rede de contatos.

Em 2013 algo havia mudado, de repente era cool ter e expressar opiniões políticas nas redes sociais. Ele não tinha muitas, mas percebeu que bastava falar mal de políticos e criticar a corrupção do PT. Ele estava na onda. Ele participou de uma manifestação contra o aumento de 20 centavos nas tarifas dos transportes públicos. Ele não pegava ônibus, mas não era apenas pelos 20 centavos. Ia ter muita gente bacana lá e ele podia conhecer alguém legal. Foi com dois amigos. Em dado momento, um dos amigos pisou de mau jeito no meio fio da calçada, machucou o pé, nada grave, mas eles resolveram que era melhor voltar para casa, de táxi.

Em 2014, exaltação! Ia votar pela primeira vez e ostentava com orgulho o número de seu candidato, “contra tudo que está aí!” Gritava empolgado. E xingava muito no Twitter e no facebook. Bloqueou muita gente que antes ele achava ser do bem, mas que agora se alinhavam com as forças do mal. E ele não entendia o porquê dessas pessoas não enxergarem a verdade como ele finalmente enxergava. O mal era o PT e esse partido precisava ser erradicado da face da Terra!

Seu candidato perdeu a eleição e ele se revoltou; não se conformou. Não estava acostumado a ser contrariado. Ele não podia aceitar que uma presidente anta como aquela, eleita por uma maioria burra, destruísse seu amado país. Gritava feito louco nas redes sociais e acompanhava a opinião de todos os colunistas que sabiam a verdade, e diziam aquilo que ele queria ouvir. A ideia agora era defender o impeachment da “presidanta” a todo custo, para salvar o Brasil da corrupção e não pagar o pato.

Veio o impeachment... Vieram as gravações da Lava-Jato. Político é tudo igual, não tenho culpa. Eu sou um cidadão do bem. Hoje, procura espantalhos nas redes sociais para temer e atacar. Mede a sociedade usando sua vida como parâmetro de medida. Se sua vida é tão boa, por que todo mundo não age e se comporta como ele? Talvez uma ditadura do bem faça todo mundo andar na linha e deixem as coisas em ordem, afinal, se todo mundo for certinho, tudo fica certinho, né? 

domingo, 5 de novembro de 2017

Conservaria



É simples. Se o mundo fosse um lugar bom, justo e igualitário, eu também seria conservador, pois iria querer conservá-lo assim, bom, justo e igualitário. Porém, o mundo não é. O mundo é ruim, injusto e intolerante, e isso me incomoda. Logo, quem se esforça para conservar o mundo assim, só pode ser condescendente com ele e contemporizar com tal situação. Geralmente quem o faz, o faz por se encontrar numa posição segura e privilegiada dentro do sistema, estando confortável em seu padrão de vida, ao qual não quer perder ou ver mudar. Dessa maneira, age mais preocupado com o seu próprio bem-estar do que com o bem-estar geral da sociedade. Segue princípios egoístas e menospreza os degradados pelo sistema, portanto, não pode ser considerada uma boa pessoa da qual se valha a pena ouvir a opinião, pois seu discurso sempre será pensado para si, e não para os outros.

Existe um princípio de falácia que percebo ser recorrente em textos de pseudointelectuais e gurus de araque das redes sociais, que consiste em misturar a lógica semântica com a lógica de pensamento. Sofismas, em que se jogando com palavras, levam os textos e o pensamento do autor a parecerem mais contundentes do que de fato são. Ojerizo isso, mas o texto acima é um exemplo.

As palavras e a língua seguem a uma lógica própria, muitas vezes confusa, que não, necessariamente, obedecem à lógica do pensamento racional cartesiano. Uma palavra pode abarcar amplos sentidos em seu significado, o que pode gerar ambiguidade no entendimento entre os interlocutores. Qualidade muito apreciada pelos poetas, mas que deve ser dirimida no debate filosófico.

Quando relaciono a palavra “conservador” com a simples ideia de se conservar, no caso, este mundo purulento cheio de problemas no qual vivemos, estou fazendo um arranjo com as palavras (não totalmente injustificado) em que reduzo toda uma gama de pensamentos e individualidades num único balaio generalizante, e taxo a tudo como algo vil e desprezível que deve ser repudiado. O que não é verdade, pois nessa gama conceitual existem muitas pessoas de boa índole, inteligentes e ponderadas, que desejam o bem do próximo e o progresso geral da humanidade, embora no chafurdar das redes sociais, os imbecis acéfalos, ressentidos e odientos acabem se sobressaindo no conjunto. Aliás, como também acontece no conglomerado de gente da dita esquerda, que acabam sendo reduzidas no mesmo balaio pelos picaretas da direita.

Esse reducionismo binário da complexa problemática da sociedade contemporânea, nas sábias palavras do mestre Bodedharma, é uma merda do caralho.

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O termo conservador com conotações políticas surgiu na França no começo do século XIX, por conta do movimento de restauração dos valores sociais que haviam sido depredados pela Revolução Francesa. Desde então o termo engloba pensamentos diversos, com características específicas de seu dado momento histórico e regional, mas, em suma, consiste no esforço político de muitos indivíduos pela manutenção da configuração social vigente, na qual eles estejam convenientemente assentados e bem acomodados. Se, por exemplo, os interesses dos conservadores do passado tivessem prevalecido, a escravidão no Brasil nunca teria sido abolida. Afinal, “se está bom para mim, que não sou escravo, para que mudar, né?”.

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Agora, um fato histórico: quando o primeiro homem resolveu limpar a bunda depois de cagar, os conservadores de então entraram em polvorosa. “O quê?! Como assim?! Que absurdo! Um homem de bem passando a mão na própria bunda?!”. Ainda bem que o progresso prevalece.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ironia para quem precisa


Pobre do espírito que não compreende a ironia. Talvez a figura de linguagem mais sofisticada, pois diz o oposto do que quer dizer, contrariando a lógica do pensamento cartesiano, o que exige certo refino intelectual do alocutário para ser decodificado. Algo que pode vir a ser um problema num ambiente de mentalidades embrutecidas como as redes sociais, principalmente, quando a ironia vem manifestada na forma escrita.

Verbalmente, a ironia tende a seguir acompanhada pelo tom da fala e, ou, pelos gestos do emissor, o que auxilia no processo de decodificação por parte do receptor. Já na linguagem escrita, o grau de abstração mental exigido no processo é maior, pois requer uma boa capacidade em interpretação de textos. Porém, o que não falta no mundo é gente burra ou mal intencionada dispostas a distorcer contextos para fins de satisfação do próprio ego. A estocada irônica não atinge ouvidos parvos.

Particularmente, sou do voto de que se criem um sinal de pontuação para se especificar a ironia em textos, tal como se faz com a interrogação e a exclamação. Possa ser que esse sinal gráfico não evite por completo as querelas em questões de ambivalência em interpretações textuais, mas, com certeza, daria certa proteção jurídica para o emissor da ironia nos tribunais de linchamento digital, ao servir como atestado de sua intenção irônica. 

🌑    🌓    🌕    🌗    🌑

Infelizmente, uma triste notícia: Zeca Bronha morreu. Andando na praia, atingido por um raio. Tinha resolvido tirar uns momentos de folga para tomar um ar, sentir os pés na areia molhada e curtir um pouco a natureza, caminhando à beira-mar enquanto trocava inutilidades pelo whatsapp com os amigos. O tempo estava nublado e um raio o atingiu. Ao contrário do que ele imaginava, não ganhou superpoderes. Caiu fulminado no chão. Bem, na verdade ele ainda está em coma induzido, vegetando com ajuda de aparelhos, aliás, situação de vida não muito diferente da anterior, antes de ser atingido pelo raio.

Seleção natural da tecnologia


No excelente livro Criatividade S.A., Ed Catmull, presidente da Pixar e Walt Disney Animation Studios, conta um pouco sobre a trajetória de sua vida profissional, o surgimento da Pixar, e as dificuldades enfrentadas pela empresa na busca de sua consolidação. Ele apresenta o desenvolvimento de seu modelo mental de gestão, apontando as lições que ele adquiriu ao longo de sua vivência e experiência.

Há uma passagem interessante sobre sua experiência na Lucasfilms, produtora de George Lucas, em que, liderando a equipe de computação gráfica, ele havia desenvolvido um programa para a edição de filmes no computador; era meados dos anos 80. No dia do teste, porém, nenhum editor da produtora quis participar. Eles não queriam saber de tal programa.

A percepção de Ed Catmull sobre aquilo foi a de que os editores, plenamente satisfeitos com o processo ao qual já dominavam, não queriam saber de mudanças que abalassem sua zona de conforto. Um dos maiores empecilhos para o progresso da tecnologia seria, portanto, a resistência e o desinteresse daqueles que não queriam que ela progredisse.

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De fato, a tecnologia muitas vezes parece avançar num ritmo mais acelerado do que o intelecto, ou vontade, da grande massa humana é capaz de assimilar, ou aceitar. O ser humano gosta de conforto, e manter o domínio pacífico sobre algo relevante que lhe seja proveitoso é confortável. Mudanças bruscas tendem a gerar momentos de estranhezas à percepção humana, podendo essa experiência ser positiva e estimulante para alguns, mas desconfortável para outros, creio eu, que para a maioria das pessoas. Se o novo não surge para suprir uma necessidade real e patente das pessoas, ele precisa vir se instalando aos poucos, à medida que cativa o interesse e o desejo alheio, muitas vezes, com o marketing anunciando e divulgando sua presença. Se o novo for bom na proporção de vantagens e confortos, acaba se consolidando naturalmente.

Os primeiros impressos produzidos por Gutenberg buscavam se assemelhar aos manuscritos feitos naquela época, não por questão de praticidade técnica ou capacidade tecnológica, mas sim, por conformação mercadológica. Os manuscritos já eram um produto culturalmente estabelecido, e seu valor era alto, em todos os sentidos. Era um objeto para poucos e que dava status a quem os possuía. Certamente, o desenvolvimento de um processo mecânico para reprodução de páginas era uma busca que interessava muito mais aos “editores” do que aos consumidores. Estes, em princípio, estavam satisfeitos. Mudanças bruscas demais nas características dos livros poderiam causar estranhamentos e afetar negativamente o interesse dos consumidores pelo produto. À medida que a tipografia foi se desenvolvendo, as vantagens técnicas possibilitadas pelo novo processo começaram a se sobressair e se firmar no mercado, estabelecendo um novo paradigma cultural sobre o entendimento do livro como objeto.

E o progresso tecnológico continuou seguindo... Atualmente, na maioria dos livros digitais existe uma função que emula o passar das páginas, não por que essa seja uma necessidade tecnológica...

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Outro exemplo, o teclado do computador, cuja disposição das teclas segue a mesma das máquinas de escrever desde o século XIX. Embora existam alguns diferentes padrões no mercado, o QWERTY, patenteado por Christopher Sholes em 1868, praticamente, é o universal para o alfabeto latino. Segundo se diz, embora haja quem conteste, tal disposição de teclas nesse formato de teclado teve por finalidade evitar que os martelos das máquinas de escrever se enganchassem ao se digitar muito rapidamente. Ora, num aparelho mecânico como a máquina de escrever, isso faz todo o sentido, mas em um computador onde tal problema não existe, não. No entanto, continuamos a usar esse formato de teclado totalmente contraintuitivo.

Na internet há textos que discorrem mais a fundo sobre o tema, no geral, apontam como razão, uma conformada convenção mercadológica imposta pelas principais fabricantes de máquinas de escrever ainda no século XIX. Aproveito para lembrar que não sou nenhum especialista no assunto, tá? Sou apenas um “especulista”.

Nunca digitei num teclado diferente do QWERTY, mas imagino que seja uma experiência esquisita e desconfortável a princípio, porém, se por qualquer motivo eu fosse obrigado a utilizar um desses outros formatos, gosto de pensar que eu seria capaz de assimilar a nova lógica com o devido tempo de uso. Apesar do processo de adaptação ser desconfortável, estar bem adaptado às novas realidades situacionais gera conforto. Contudo, ufa, ainda bem que não sou obrigado.

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Lembro que em 1998 eu estagiava numa repartição pública em Salvador. Lá, havia uma secretária que datilografava numa grande máquina de escrever eletrônica, a melhor do mercado até então, lembro-me dela se gabando. O teclado era extremamente sensível; e certa vez, por curiosidade pedi para digitar na máquina. Um leve toque na tecla; e a letra partia em disparada, repetidas vezes na folha. Depois de um breve ajuste mental-corporal, ok, consegui me sintonizar com a máquina. A secretária, por sua vez, parecia ter desenvolvido uma simbiose mágica com o aparelho, à la as criaturas do filme Avatar. E eu achava incrível observar a desenvoltura com que ela digitava.

Era exímia, rápida e desprendida. Devia ser algo comum daquele meio profissional, mas como eu não fazia parte daquele meio, para mim, era algo fenomenal. Ela digitava sem parar enquanto conversava e interagia com outras pessoas ao redor. Tirava sarro ou trocava provocações com os colegas, sempre digitando, quase sem olhar para folha, muito menos para o teclado. Digitava com uma mão, enquanto, gesticulando com a outra, se virava para trás na cadeira ao tratar de algum assunto, qualquer que fosse, com alguém. Já cheguei a vê-la digitando enquanto falava acaloradamente ao telefone. Para mim, ela era a Bruce Lee da máquina de escrever.

No ano seguinte tiraram a máquina de escrever da repartição e colocaram um computador. Windows 98, com um negócio chamado mouse... Meu Deus, pense em alguém sofrendo, era essa mulher diante do computador tentando mexer nele. Desanimada, triste, ficava repetindo baixinho: “não é a mesma coisa, não é a mesma coisa”...

sábado, 21 de outubro de 2017

"Desaurora" do homem


Quando comecei a escrever este blog anos atrás o mundo era outro. Não havia essa profusão de chorume transbordando nas redes sociais; tampouco, as chorumelas da rede tinham a capacidade de me impactar de forma significativa na vida real. Porém, algo mudou e passei a perceber que uma simples lida no feed de notícias do facebook tem o poder de azedar minha tarde. Se houvesse um plebiscito a respeito, eu votaria pelo fim do facebook no Brasil. Pronto! Cabô! Pelo fim dessa patifaria toda aí!

Ok, ok... Radicalismo não tem nada a ver. O facebook não tem culpa pela profusão de merda por ele disseminada, embora os algoritmos tenham lá sua parcela de culpa sim, mas, enfim, tal como uma arma, ou qualquer outra ferramenta, ele está apenas a serviço de quem o usa. Blablablá é verdade. O facebook é apenas um espelho turvo da sociedade, que reflete muitos de seus cidadãos sem polidez.

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Em regiões onde o respeito pelo estado de direito é mínimo e a incidência da violência é alta e banalizada, pessoas que buscam se resguardar tendem a ser mais moderadas no tratamento uma com as outras, pois qualquer palavra fora do tom ou olhar mal interpretado pode servir de estopim para a deflagração de atos de hostilidades e agressões. O medo de tomar porrada ou levar meia dúzia de tiro na cara faz as pessoas serem mais educadas com as outras.

O facebook ameniza esse risco, e é justamente por causa dessa sensação de segurança que a bolha virtual nos proporciona que muita gente se sente à vontade para se agigantar de forma monstruosa na frente do computador, esbravejando, xingando e ofendendo quem quer que seja, de maneira que jamais teriam coragem de fazer presencialmente. O facebook serve de púlpito para os covardes e patifes.

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O pior é que a ignorância é tanta, que muita gente profere os mais abjetos comentários e nem sequer se dão conta de sua abjeção. Não enxergam como tal. O narcisismo egoico é tanto, que, para essas pessoas, o que pensam, falam ou sentem será sempre o certo e verdadeiro, sendo seu direito expressá-lo como bem entender. Não questionam a legitimidade ou conveniência de suas declarações; se acreditam, logo, só pode ser verdade. Veem suas falhas de caráter como traços de sua personalidade, linda e maravilhosa; e quem discorda, sinto muito, só pode ser um pobre coitado idiota. O senso crítico nas redes sociais é que nem o ar na estratosfera, bastante rarefeito.


Eles não percebem os imbecis que são. São cognitivamente imaturos, não aprenderam a desenvolver plenamente o pensamento abstrato e o raciocínio-hipotético-dedutivo em meio ou após a adolescência. Estacionaram em algum estágio emocional juvenil e lá permaneceram.

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Às vezes, a sensação que tenho é a de que o mundo foi tomado por esses seres. Seres que diante da dificuldade de lidar com as complexas variáveis de um mundo pluricultural, se apegam às suas verdades binárias e maniqueístas, e partem para atacar os espantalhos que os assombram, sendo esses espantalhos, qualquer coisa da qual eles não tenham afinidade. E esses seres surgem tanto da direita, quanto da esquerda.

Muitas coisas mudaram na dinâmica social brasileira nos últimos anos, embora a essência permaneça exatamente a mesma. Nada, de fato, surpreendente, pelo contrário, extremamente previsível para não dizer preditivo! Ainda assim, complexo e conturbado. O nível de esculhambação no país é tão absurdo que o Brasil virou uma caricatura de si mesmo.


quarta-feira, 18 de março de 2015

O bugio dos novos tempos


Dia 15 de março de 2015, dia que entrou para a história do Brasil, com certeza. Mas como o quê? Dia em que o povo foi para rua protestar... Protestar contra o quê? Contra a corrupção em geral, contra o governo, contra o PT, contra todos os partidos existentes ou apenas contra o partidarismo fanático? Foi contra a presidente, contra o sistema político como um todo, contra o comunismo, contra o fascismo, contra a esquerda, contra a direita, contra o presidencialismo, contra a democracia, contra a república, contra a abolição da escravatura, contra a carta dos direitos humanos, contra o método do pensamento racional... Contra o quê? De certa forma, teve de tudo um pouco nessa manifestação.

É inegável que o sentimento de insatisfação e revolta do povo seja legítimo, mas garanto me valendo do mesmo método de análise que a PM utilizou para calcular o número de participantes nas manifestações, que 96% das pessoas que foram às ruas protestar não sabem, sequer, dizer a diferença na função de um vereador, um deputado e um senador; 89% não sabem dizer quais são os três poderes da República e 78% não sabem a diferença entre o presidencialismo e o parlamentarismo. Tudo se reduz à pura bugiaria. Momice transvertida de consciência política. Sentem raiva e gritam contra qualquer coisa que sirva como alvo, como um chimpanzé enraivecido que vocifera de um lado e do outro, batendo nos peitos e escancarando os dentes em disputa de dominância, como nas cenas do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, quando, na aurora do homem, grupos rivais de hominídeos pré-históricos “deliberam politicamente”, à maneira deles, o usufruto da poça d’água em questão. Vence a violência, claro, e o grupo que sabe utilizar a nova tecnologia do porrete de osso a seu favor.

É preciso saber reconhecer e distinguir o conceito de nação do conceito de governo, do conceito de partido, da noção de sociedade e dos demais elementos que compõe a coisa pública, antes de se pretender consertá-la. Coisa que a imensa maioria dos queridos e bem intencionados patriotas que foram às ruas protestar, não fazem a menor ideia. Sem essa consciência política, o discurso do cidadão se torna raso e seu protesto, pobre, por mais que ele esperneie e se agite. Quando grande parte dos indivíduos de uma manifestação é completamente alienada, é obvio que não predominará entre elas uma discussão política mais consistente e séria, por mais nobres que sejam suas intenções. O que resta, portanto, é um conglomerado de gente gritando junto, quando não, relinchando e sendo usada como massa de manobra. E isso vale tanto para esquerda quanto para a direita.

O que se vê na discussão atual é uma generalização banal da problemática brasileira. Rixas partidárias se mesclam com oposições em questões sociais, que se ampliam em querelas ridículas nas redes sociais (antigas mesas de bar) e tomam proporções gigantescas com a imagem errônea de que o Brasil sofre uma verdadeira cisão social e que beira a uma guerra civil entre classes... Isso é falso e artificial! Essa cisão social não é real! É apenas a expressão factícia de uma discussão política vazia e superficial, onde grupos rivais buscam se beneficiar. Nesse caminho, vencerá aquele que melhor dominar as tecnologias do porrete digital a seu favor e, claro, a violência.

Seu sentimento de indignação, caro cidadão de “bens” (ou nem tanto), é legítimo! O governo está aí para ser criticado e deve ser mesmo. Motivo para tal é o que não falta. Porém, um enorme espetáculo teatral não é composto apenas pelos artistas que estão em cena. Existe toda uma infraestrutura por trás do espetáculo, necessária para que a peça seja encenada. Não adianta apenas querer mudar o ator que está em cena se é todo o conjunto da montagem que está degringolado. E o teatro da política brasileira já vem se arruinando há muito tempo.

Não seja massa de manobra. Não seja burro servindo de montaria para oportunistas. Você pode até não se ver como uma marionete, mas existem mãos de quem se julga titereiro querendo te manipular. Ora é da esquerda, ora é da direita. No caso, desta vez, foi sim da direita. Buscaram canalizar o sentimento real de indignação popular para fins de ganho político. E conseguiram. Comparar essas manifestações de 2015 com as de 2013 é improcedente. As de 2015 foram orquestradas deliberadamente com fins não expressos de partidarismo político. Não foi uma manifestação realmente apartidária como as de 2013. Muita gente foi sim, de coração aberto e com reivindicações legítimas, mas, desculpem dizer, vocês foram usados como massa de manobra dessa vez. De uma forma menos explícita e centralizada como os movimentos de esquerda fazem e fizeram no dia 13, mas foram.

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O que prejudica a discussão política no Brasil é a tendência maniqueísta e simplória de muita gente, em querer posicionar todas as questões políticas e sociais em dois únicos polos de interesses distintos e defender o seu predileto como um torcedor de futebol fanático faz pelo seu time. A raiz desse tipo de postura é a mesma que gera a corrupção no país e no mundo, ou seja, a abdicação do pensamento racional em virtude do bem comum pela justificativa do ímpeto de um desejo particular. Refletir sobre a complexidade da problemática brasileira, entre tantas outras, dá trabalho e requer um exercício de pensamento ativo e consciente, coisa que a débil educação brasileira não prepara o cidadão para fazer. O resultado é o que se vê: um monte de gente vociferando o que pensa sem saber pensar. Contudo, acredito que essas manifestações que vem acontecendo ultimamente sejam só um esboço do que ainda está por vir. Para o bem ou para o mal.

domingo, 4 de setembro de 2011

sketch... saúde!

  

Alguns sketches... Gosto de apreciar a beleza do povo feio de vez em quando. Já desenhar, não sinto mais tanto prazer quanto já senti anteriormente. Sei lá... não gosto de desenho por desenho, técnica pela técnica... O desenho, para mim, deve estar a serviço de alguma ideia, expressando algo que nos faça refletir; concordar ou discordar. Por isso gosto tanto do desenho de humor. Sinto prazer quando uma imagem, rica em mensagem, me toca e se soma ao meu repertório imagético.

Não acredito que esse modo de entender o desenho seja melhor do que qualquer outro, mas, particularmente, senti certo alívio quando entendi essa questão sobre mim, pois me cobrava (ainda cobro) demais por algo que não me sublimava tanto. Porém admiro, ou até mesmo inveje, os talentosos artistas que, quase compulsivamente, rabiscam, rabiscam, rabiscam... pelo puro prazer de rabiscar.  Eu devia fazer mais sketches e tentar reaprender a desenhar descompromissadamente. *
Mais importante do que o calibre da pistola é a habilidade do atirador. Era o que dizia Zeca Bronha quando tiravam sarro dele no vestiário. *
Não sei se é impressão minha, mas outra seqüela social decorrente do crack que eu noto, é que os moradores de rua, em geral, se tornaram mais arrogantes. *
Quando desenhei a historinha do post anterior para o aniversário da gibiteca de Santos, desconfiava que poderia ter o trabalho vetado, mas pensei que seria besteira. Passou-se o tempo; não estava nem um pouco preocupado com isso, quando por acaso soube por um funcionário da gibiteca que sim, o desenho havia sido desconsiderado por não estar, digamos, de acordo com o tom desejado pela prefeitura.

A reflexão, às vezes, incomoda.*

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Gibiteca para quem precisa

Aniversário da gibiteca de Santos, recentemente. Precisava fazer um desenho comemorativo para expor lá. Pensando no que desenhar, refleti sobre a gibiteca. Um elefante branco sentado na praia lendo um gibi?... Não... Não creio que a gibiteca seja algo demasiadamente dispendioso, muito menos algo inútil ou sem importância. Pelo contrário, do ponto de vista cultural, a gibiteca agrega valor à cidade de Santos por disponibilizar gratuitamente seu acervo; manifestações de uma forma de expressão artística, distinta e plena. No caso, as histórias em quadrinhos e afins, manifestações da chamada nona arte.

Volta e meia, iniciativas são tomadas na tentativa de chamar atenção e valorizar a gibiteca, tais como eventos, palestras, exposições e oficinas, mas a verdade é que o rei está nu. A comunidade santista parece não demonstrar interesse por aquele espaço, ou por não reconhecerem seu valor cultural, ou simplesmente, por desconhecerem, o que é mais provável, pois, quando confrontados com o discurso, a maioria das pessoas reconhece a importância da gibiteca, embora na prática, no dia-a-dia, não a freqüentem.

Será que por causa do nome, gi-bi-te-ca, soar como algo antiquado, infantil ou bobo, a torna passível de ser menosprezada? Talvez mudando o nome para algo tipo "comicsteca" ou sei lá... Como é “gibiteca” em inglês!?... Enfim, o que quero dizer é: como o povo adora um anglicismo, talvez pondo um nome mais style, lhes despertem algum interesse em freqüentá-la, ou talvez, como eu acredito, o calo seja mais duro e a questão reflita na própria noção de cultura e sua absorção. Qual é o significado de “cultura” numa sociedade cada vez mais ávida e passiva por entretenimento?

Ultimamente, os principais usuários da gibiteca que eu vejo são os moradores de rua, bodes expiatórios, inclusive, no discurso de muitos para justificar a baixa freqüência dos “cidadãos de bens” na mesma. De fato, é desagradável quando um morador de rua fedendo a cachaça está sentado ao seu lado, ou demonstra alguma inconstância comportamental, meio agressiva. Eu mesmo já vi mães incomodadas tirando seus filhos da gibiteca por causa de coisas assim... Acontece, apesar da preocupação dos funcionários de retirar os indivíduos nesse estado. Contudo, no geral, o que eu testemunho são pessoas desfavorecidas, que vivem na rua e que encontram algum tipo de refúgio na gibiteca. Bebem aguinha no bebedouro, curtem um ar condicionado e lêem quadrinhos. Lêem, se distraem, e experimentam da catarse que a nona arte proporciona. Que bom alguém saber aproveitar aquele espaço.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Não adianta relinchar!

Está cada vez mais difícil ser otimista com o futuro político brasileiro. Desgosto. Essa última do aumento do salário dos parlamentares pelos próprios, de 61,83% foi foda! Mas o que dói mais é esse sentimento de impotência. Essa sensação de que não adianta relinchar, gritar ou bufar, porque o sentimento de insatisfação do povo não ecoa mais, nem sequer hipocritamente, naqueles que deveriam ser os porta-vozes ressonantes dessa insatisfação. Quanto mais o tempo passa, mais descarada fica a coisa. As pessoas até fazem protestos por aí, como vemos nos noticiários, mas geralmente são brandos e descontraídos, traços típicos de nossa gente. O povo se vale de sarcasmos e ironias buscando achincalhar o absurdo. Não funciona mais. O povo zomba dos políticos tentando ridicularizá-los, mas estes por sua vez, desdenham do povo e ignoram sua zombaria. E o abacaxi pútrido vai seguindo na marola social.

O Brasil hoje é uma imensa tribo de cidadãos antropófagos, sempre dispostos e ávidos para mordiscar o próximo. E nossos caciques são os mais vorazes.

Em meio as brumas, o que vejo é um farol, e desse farol o que vejo iluminar, é a uma guilhotina. Não é possível as coisas continuarem assim! Inevitavelmente, uma hora, a raiva do povo transbordará! É o esboço de uma revolução. Revolução moral e ética. E guilhotina a todos que dilapidam descaradamente o bem coletivo.

No blog de Gazy Andraus, um post trata do caso da Folha de São Paulo contra o blog “Falha de São Paulo”, daí lembrei de algo que me aconteceu por esses dias.
http://conscienciasesociedades.blogspot.com
Estava eu na casa de uma amiga que acabara de ganhar um cachorrinho. Ela precisava de um jornal qualquer para tentar educá-lo sobre onde fazer suas necessidades, mas como não havia nenhum por lá, saímos para comprar, ou se possível, arranjar um desses jornais gratuitos que distribuem por aí. Cheguei à banca e perguntei se havia algum jornal desses, de distribuição gratuita. O jornaleiro disse que não tinha porque o “Estadão” havia proibido. O quê!? Como assim!?... Estadão proibiu!?... Mas que absurdo louco é esse!?... Aí o jornaleiro reafirmou que por causa do Estadão, ele não podia ter na banca jornais de distribuição gratuita. A liberdade de imprensa no Brasil é relativa ao poder político e ecônomico que o grupo veiculante detém. Não me aprofundei no porquê da coisa com o jornaleiro, mas fiquei desagradavelmente surpreso. Tem algo de podre no reino da “Brasilândia”... Um vulto fétido se adensa aos poucos... Por fim, ela acabou comprando um Estadão mesmo, pois ao que se destinava, esse jornal serviria muito bem.

E o profeta Zarhroy, aquele que fora de foco tudo vê fez mais uma previsão. Em virtude do fracasso educacional, o uso da palmatória é retomado nas escolas de todo país como uma forma legítima dos alunos castigarem seus professores.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Jeitinho dejetinho

Meio de luto pela eleição de Tiririca. Desgostoso com a discussão política brasileira. Não estimula nossa inteligência. Relativizam a verdade pela conveniência do momento e atropelam com bravatas torpes a racionalidade dos discursos.

charge feita nas eleições de 2006. 


Lula, a mascote do Brasil, é o grande mestre dessa prática. É o sacrossanto padroeiro do Jeitinho Brasileiro. É o cara! O grande messias exportador desse típico produto genuinamente brasileiro! “Israel e Palestina estão em conflito!? Que é isso?! Vamos deixar as desavenças de lado e dançar um sambinha!”... Quebrou-se a cara, mas não o Cara!... “O TSE está me dando uma multa!? Eles sabem com quem estão se metendo?! Eu sou o grande presidente desta pocilga! Dou risada desse ato institucional!”... “Mensalão?! Eu não sabia, mas quem não faz!?”.

E como o povo reage a isso?! Ora, o povo se reconhece! Reconhece o “jeitinho” como parte da cultura de seu dia-a-dia. E Lula é do povo, então é normal que ele haja assim!... Aos companheiros, o que quiserem, aos outros, o que a lei permitir. Isso é o normal na cultura brasileira. Quem não daria um jeitinho pra ajudar ou favorecer um amigo, ou companheiro? Somos cordiais, como já explicou Sérgio Buarque de Holanda... As leis e as normas são meras imposições desagradáveis que o Estado nos inflige, então vamos todos passar por cima delas!... Vamos galera! Todos juntos burlando todas as leis, e de mãos dadas gritando: Viva o Brasil! Pentacampeão mundial de futebol!!
Também de 2006.

O jeitinho brasileiro está na raiz cultural da nação como uma forma criativa e legítima das camadas menos favorecidas da população de lidar com as leis impostas por uma elite dominante e coerciva. No entanto, A superestimação dessa cultura, segundo vejo, representa o grande mal do país hoje, justamente por supervalorizar a esperteza e a malandragem em detrimento da honestidade e do respeito às instituições. Honesto no Brasil é otário. A sociedade hoje nos estimula para a desonestidade. E para mim, a grande decepção que tive com o governo do PT foi de praticamente ver a institucionalização do jeitinho Brasileiro na esfera pública.

E com Serra seria diferente?... Não muito. A diferença é que o grupo que Serra representa reconhece melhor a importância da hipocrisia na vida social brasileira. Sabe que o lugar do jeitinho é na obscuridade dos bastidores e não sob os holofotes do palco principal. Em outras palavras, sabem esconder melhor a sujeira embaixo do tapete. Ainda mais por não terem uma imprensa empresarial panfletando freneticamente contra eles.

O que se vê na discussão política de hoje é a cordialidade inflamada que o já citado Sérgio Buarque se refere. Não a cordialidade no sentido de gentileza, mas sim, a derivada do termo em latim, cordis, coração, emoção. Emoção em prejuízo da razão é o que se vê nos palanques. A ignorância é tanta que daqui a pouco estarão dizendo por aí, que além de religião e futebol, política também não se discute.