sábado, 21 de outubro de 2017

"Desaurora" do homem


Quando comecei a escrever este blog anos atrás o mundo era outro. Não havia essa profusão de chorume transbordando nas redes sociais; tampouco, as chorumelas da rede tinham a capacidade de me impactar de forma significativa na vida real. Porém, algo mudou e passei a perceber que uma simples lida no feed de notícias do facebook tem o poder de azedar minha tarde. Se houvesse um plebiscito a respeito, eu votaria pelo fim do facebook no Brasil. Pronto! Cabô! Pelo fim dessa patifaria toda aí!

Ok, ok... Radicalismo não tem nada a ver. O facebook não tem culpa pela profusão de merda por ele disseminada, embora os algoritmos tenham lá sua parcela de culpa sim, mas, enfim, tal como uma arma, ou qualquer outra ferramenta, ele está apenas a serviço de quem o usa. Blablablá é verdade. O facebook é apenas um espelho turvo da sociedade, que reflete muitos de seus cidadãos sem polidez.


Em regiões onde o respeito pelo estado de direito é mínimo e a incidência da violência é alta e banalizada, pessoas que buscam se resguardar tendem a ser mais moderadas no tratamento uma com as outras, pois qualquer palavra fora do tom ou olhar mal interpretado pode servir de estopim para a deflagração de atos de hostilidades e agressões. O medo de tomar porrada ou levar meia dúzia de tiro na cara faz as pessoas serem mais educadas com as outras.

O facebook ameniza esse risco, e é justamente por causa dessa sensação de segurança que a bolha virtual nos proporciona que muita gente se sente à vontade para se agigantar de forma monstruosa na frente do computador, esbravejando, xingando e ofendendo quem quer que seja, de maneira que jamais teriam coragem de fazer presencialmente. O facebook serve de púlpito para os covardes e patifes.



O pior é que a ignorância é tanta, que muita gente profere os mais abjetos comentários e nem sequer se dão conta de sua abjeção. Não enxergam como tal. O narcisismo egoico é tanto, que, para essas pessoas, o que pensam, falam ou sentem será sempre o certo e verdadeiro, sendo seu direito expressá-lo como bem entender. Não questionam a legitimidade ou conveniência de suas declarações; se acreditam, logo, só pode ser verdade. Veem suas falhas de caráter como traços de sua personalidade, linda e maravilhosa; e quem discorda, sinto muito, só pode ser um pobre coitado idiota. O senso crítico nas redes sociais é que nem o ar na estratosfera, bastante rarefeito.


Eles não percebem os imbecis que são. São cognitivamente imaturos, não aprenderam a desenvolver plenamente o pensamento abstrato e o raciocínio-hipotético-dedutivo em meio ou após a adolescência. Estacionaram em algum estágio emocional juvenil e lá permaneceram.


Às vezes, a sensação que tenho é a de que o mundo foi tomado por esses seres. Seres que diante da dificuldade de lidar com as complexas variáveis de um mundo pluricultural, se apegam às suas verdades binárias e maniqueístas, e partem para atacar os espantalhos que os assombram, sendo esses espantalhos, qualquer coisa da qual eles não tenham afinidade. E esses seres surgem tanto da direita, quanto da esquerda.

Muitas coisas mudaram na dinâmica social brasileira nos últimos anos, embora a essência permaneça exatamente a mesma. Nada, de fato, surpreendente, pelo contrário, extremamente previsível para não dizer preditivo! Ainda assim, complexo e conturbado. O nível de esculhambação no país é tão absurdo que o Brasil virou uma caricatura de si mesmo.


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